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Caçapava por muito tempo ficou conhecida pela
fabricação de carros de boi. Os carros de boi aqui
fabricados eram de excelente qualidade e durabilidade. Ainda hoje,
eles são fabricados em nossa cidade pelos "Irmãos
Toseto", família tradicional na fabricação
deste veículo.
Neste ano de 2006, a Semana do Folclore em nossa cidade teve como
tema: "O Canto do Carro de Boi", e homenageou os seus fabricantes
pelo seu empenho e dedicação.
Rústico, modesto, vagaroso, o carro de boi foi, sem dúvida
alguma, um dos fatores que muito |
concorreram para o progresso rural do Brasil.
Primeiro veículo de transporte que a nossa terra possuiu,
o carro de boi, "afundando o chão" virgem do Brasil-Colônia
e Império, nele escreveu, com os sulcos paralelos de sua rodas
pesadas e maciças, os primeiros capítulos da história
do povoamento e agricultura nacionais.
Não exige estradas adrede preparadas para se deslocar, ele
mesmo as faz, ora rolando no campo limpo ora aproveitando a picada
da floresta espessa. Não tem também preferências
quanto às naturezas do terrenos e o relevo não constitui
obstáculos para a sua circulação, pois roda
em qualquer espécie de solo, seja ele arenoso, lamacento ou
pedregoso; é questão somente de aumento da força
de tração. Daí ser eminentemente prático,
perfeitamente ao terreno áspero, transpondo obstáculos
naturais por difíceis caminhos, impraticáveis e outras
espécies de veículos.
Todo de madeira, compõe-se de duas peças principais:
o estrado e o conjunto roda-eixo. O estrado, gradeado ou de pranchas
de madeira justapostas, é retangular, apresentando na parte
dianteira um varal ou lança - o "cabeçalho".
Em cada borda do estrado são fincadas varas roliças
- os "fueiros" - que amparam lateralmente a carga. As rodas,
em número de duas, geralmente maciças, por vezes com
recortes semilunares, elípticos ou losangulares, são
de madeira rija altas e pesadas, protegidas por um aro de ferro quando
rolam em terreno pedregoso. Estão solidamente encaixadas no
eixo-móvel, que gira entre quatro peças de madeiras
- os "cocões" – embutidas no estrado (duas
de cada lado) que se apoia sobre eixo pelos "calços".
Entre o calço e o eixo é colocado um indispensável
suplemento - a "cantadeira" - untada com uma pasta de sebo
e pó de carvão, para fazer o carro gemer, quando atritada
durante a marcha. "carro que não canta não presta.
Não é carro!"... O seu gemido característico,
ligeiramente modulado, constitui motivo de orgulho para o correiro
que não dispensa nunca.
A força de tração é fornecida unicamente
por bovinos, dispostos dois a dois – as "juntas" – cujo
número varia com o peso de carga, natureza do solo e topografia
da região. As juntas são unidas pelas "cangas" que,
por sua vez, são ligadas ao cabeçalho por varais articulados
- os "cambões". Tiras de couro - as "tamboeiras" -
ligam o cambão entre si. A canga repousa na nuca dos bois, prendendo-os
pelo pescoço, que fica entre dois bastões perpendiculares,
atados ou embutidos na canga - os "canzis" - cujas pontas
inferiores são ligados por uma fita de couro - a "brocha" -
passada pela barbela do animal. Atrelada ao cabeçalho fica a "junta-mestra" ou
de "pé-de-carro" ou "junta-de-coice", a
mais importante de todas, pois, além de abrir a marcha, sustenta
grande parte do peso do carro. A que se lhe
segue é chamada "junta-forte" e as outras "juntas-de-frente".
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Equipamentos que são utilizados na fabricação
de Carros de Boi, de propriedade da família Toseto, que ficaram
em exposição no Centro Cultural na Semana do Folclore. |
O boi de carro é forte, musculoso e extremamente dócil.
Dois são os seus condutores: o carreiro e o candieiro. O primeiro
caminha ao lado do carro, mantendo o ritmo vagaroso da andadura dos
bois, ora gritando pelos seus nomes, ora picando-os com o "ferrão" -
ponta de ferro presa á extremidade de comprida vara - a "aguilhada" -
que ele traz constantemente ao ombro. O segundo, geralmente um menino
ou um rapazelho, também munido de aguilhada, vai à frente
da junta dianteira ou "da-guia", dando a direção
da marcha.
O carro de boi transporta qualquer espécie de mercadoria.
Na ilustração vêmo-lo carregando a lenha. Quando
se trata, como neste caso, de carga miúda ou formada de pequenos
pedaços, costuma-se ligar as pontas dos fueiros com tiras
de couros que servem para prender a carga, amarrando-a solidamente.
Para o transporte de grãos, os espaços entre os fueiros
são fechados por largas faixas de couro, por tabuado ou por
entrançado de bambu.
De utilidade múltipla, seus préstimos são solicitados
em todas as ocasiões. Assim, apesar de ser um veículo
destinado ao transporte de mercadorias, o carro de boi também
conduz pessoas; enquanto nas longas viagens pelo interior - acrescenta
Moacir Silva - os homens vencem as distâncias utilizando-se
do cavalo ou do burro, ele conduz enfermos, velhos, senhoras e crianças,
devidamente guarnecido com uma cobertura de esteira ou de lona, a
fim de resguardar os passageiros contra as intempéries.
O carro de boi e o carreiro tem enriquecido grandemente o nosso folclore,
fornecendo interessantes e variados temas para pitorescas e expressivas
toadas sertanejas.
(SOARES, Lúcio de Castro Soares, in Tipos e Aspectos
do Brasil) |
O Canto do Carro de boi
O carro de boi não canta por boniteza, somente. Canta por
precisão. A vida do carro está na cantiga. Carro de
boi, de pau, que não canta, não é carro. É tranqueira
com rodas, coisa morta, desservida de encantamento. Porque se há muita
carga e o carro canta de gaita, a gente mata os bois. Eles ficam
destrambelhados, se estouram no esforço. Mas se o carro canta
de baixão, vão lá naquele passo deles, na mesmice
de boi deles, em paz com Deus e com o mundo. E se é trabalho
corriqueiro, normal, então é bom o carro cantar de
pombo, nem para cima, nem para baixo. Pois, estes são os três
tons de cantar dos carros: pombo, que é médio, macio.
Gaita, fino e alto. E baixão, que é grosso e grave.
Carro cantador não vareia, não descontinua nem destoa
nem mesmo nas bacadas mais brutas, ou manobras de vai-e-vem. Léguas
longe, quem sabe e conhece percebe a alma do carro chegando muito
antes que se possa pôr os olhos nele. Porque o canto do carro é isso: é sua
alma, é a alma do carreiro, é o jeito que Deus deu
para enfeitar a existência dos bois e dos carreiros pelos caminhos
do sertão e da vida.
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| Condutores de Carros de Boi que estavam na Abertura
da Semana do Folclore em Caçapava e participaram do documentário
sobre o assunto, vídeo este apresentado durante a cerimônia. |
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FAMÍLIA TOSETO - TRADIÇÃO
NA FABRICAÇÃO DE CARROS DE BOI EM NOSSA CIDADE
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